O jornal O Globo informa que a Polícia Federal (PF) tem indícios de uma possível conexão entre políticos brasileiros e o traficante Luiz Carlos da Rocha, o Cabeça Branca, que foi preso no dia 1º de julho de 2017, em Mato Grosso e o Carlos Alexandre de Souza, “O Ceará”.

Ele é apontado como um dos maiores traficantes internacionais de drogas da América do Sul, inclusive com negócios em dezenas de países.

A ligação apareceu com o doleiro Carlos Alexandre de Souza, o “Ceará“, que foi preso hoje, terça-feira, durante a Operação “Efeito Dominó” na cidade de João Pessoa na Paraíba.

Segundo as investigações da operação, que apura os crimes de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas, a verba obtida pelo traficante, repassada ao doleiro, estaria sendo usada no pagamento de propina a políticos.

Por mais que já desconfiávamos, é assustador saber que isso pode ser verdade.

POLÍCIA FEDERAL JÁ TEM NOMES

A Polícia Federal (PF) prendeu na manhã desta terça-feira (15) Carlos Alexandre de Souza Rocha, conhecido como Ceará, delator da Lava Jato. Outras sete pessoas também foram presas em uma operação contra lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas.

Ceará atuava na Lava Jato com o doleiro Alberto Youssef e firmou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O acordo foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A PF disse que vai avisar as duas instituições para que avaliem a rescisão do acordo.

Ceará foi preso preventivamente, ou seja, por tempo indeterminado, em João Pessoa (PB). No final da manhã, ele deixou a sede da PF na Paraíba para ser transferido para a Superintendência da PF, em Curitiba.

O delegado da PF Igor Romário de Paula afirmou que, na época da delação, Ceará escondeu os crimes que ele cometia relacionados ao tráfico de drogas.

Prisões preventivas:

Carlos Alexandre de Souza Rocha (o Ceará);
Edmundo Gurgel Junior;
Ivo Queiroz Costa Filho;
Hamilton Brandão Lima;
Geraldo Ferreira Filho.

Prisões temporárias (por cinco dias):

José Maria Gomes;
Leonir Vettori;
Pedro Araújo Mendes Lima.

Conforme a PF, até as 22h50 desta terça, estava prevista a chegada a Curitiba de seis investigados. Eles serão encaminhados para a Superintendência da PF. Hamilton e Pedro Araújo têm as chegadas programadas para a manhã de quarta-feira (16).

Outros doleiros

A imprensa apurou que, além dele, outros dois operadores financeiros agem no esquema investigado pela Operação Efeito Dominó, deflagrada nesta terça.

Um deles, Edmundo Gurgel Junior, foi investigado pela PF no caso Banestado, na Operação Farol da Colina, segundo a Polícia Federal. Ele foi alvo de prisão preventiva, no Recife (PE).

O outro doleiro preso é José Maria Gomes. A prisão dele é temporária e ocorreu no Rio de Janeiro (RJ).
Todos os presos serão levados para a Superintendência da PF, em Curitiba.

Batizada de Efeito Dominó, a ação é um desdobramento da Operação Spectrum, deflagrada em 2017. Na ocasião, Luiz Carlos da Rocha – o Cabeça Branca, um dos maiores traficantes da América do Sul, segundo a PF – foi preso em Sorriso (MT).

Cabeça Branca foi procurado por 30 anos pela PF e pela Interpol. Ele fez várias cirurgias plásticas para mudar o rosto.

De acordo com a PF, a investigação policial apontou uma “complexa e organizada estrutura” destinada à lavagem de recursos provenientes do tráfico internacional de entorpecentes.

O delegado da PF Roberto Biasoli afirmou que as pessoas presas nesta terça-feira formam o “núcleo principal” da organização ligada ao Cabeça Branca.

“Só pelo que nós conseguimos levantar com o material apreendido, do ano de 2014 a 2017, teriam sido negociadas 27 toneladas de cocaína, isso com um lucro de aproximadamente US$ 140 milhões”, disse o delegado.

Biasoli explicou que quase todos os presos tinham acesso ao Cabeça Branca, e que o contato com ele era restrito. Os presos, segundo Biasoli, são doleiros e lavadores de dinheiro.

Conforme o delegado, Ceará e Cabeça Branca passaram a atuar juntos a partir de 2016. Antes, em 2013, Ceará já trabalhava para traficantes, ainda de acordo com o delegado.

De acordo com a decisão do juiz Nivaldo Brunoni, da 23ª Vara da Justiça Federal em Curitiba, as prisões foram decretadas porque a prática dos crimes investigados “permite conclusão da existência de risco de reiteração delitiva e, por conseguinte, risco à ordem pública”.

A estratégia

A estratégia da operação, conforme a PF, é baseda na ligação de interesses das atividades ilícitas dos “clientes dos doleiros” investigados. Biasoli citou que traficantes estão entre esses “clientes”.

De um lado, havia a necessidade de disponibilidade de grande volume de reais em espécie para o pagamento de propinas, segundo a PF.

Do outro, de acordo com a PF, traficantes internacionais – como Cabeça Branca – tinham disponibilidade de recursos em moeda nacional e necessitavam de dólares para fazer as transações internacionais com fornecedores de cocaína.

Biasoli esclareceu que a troca de dólares era realizada de várias formas, sendo o dólar-cabo, que são transferências internacionais ilegais, uma delas.

Também havia lavagem de dinheiro, segundo o delegado, usando fazendas e outros bens em nome de laranjas, além do envio de dinheiro vivo para o Paraguai em carros com fundos falsos.

“A gente tem indícios de um link direto do dinheiro do narcotráfico indo parar na mão de políticos corruptos (…) Eles não estão interessados em saber a origem, eles querem receber. E esse cara que lidava com o dinheiro de narcotraficantes também entregava propina a corruptos”, afirmou Biasoli.

Os mandados judiciais

Ao todo, são 26 mandados judiciais expedidos pela 23ª Vara Federal de Curitiba. Há 18 de busca e apreensão, cinco de prisão preventiva e três de prisão temporária.

Os mandados foram cumpridos no Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e em São Paulo.

Biasoli relatou que foram apreendidos documentos, uma arma de calibre restrito e dinheiro. Entretanto, até o começo da tarde, não havia um balanço fechado do material apreendido na operação.

A polícia ainda está mapeando o caminho do dinheiro da organização criminosa.

Crimes de lavagem de dinheiro, contra o Sistema Financeiro Nacional, organização criminosa e associação para o tráfico internacional de entorpecentes são apurados pela Efeito Dominó.

Ceará preso na Paraíba

Ceará, preso na Operação Efeito Dominó, é um dos delatores da Operação Lava Jato. Ele trabalhava para o doleiro Alberto Youssef e foi preso na 1ª fase da Lava Jato.

Em 2014, Ceará disse, em depoimento, que foi a Maceió e levou R$ 300 mil para o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello (PTB-AL) em pacotes de notas de R$ 100. O depoimento foi homologado em 2015.

À época, Collor negou conhecer Ceará e questionou a credibilidade do seu depoimento.

O delator também mencionou, em depoimento, que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) recebeu R$ 300 mil a mando de Youssef. Aécio negou a afirmação.

Ceará ainda citou a entrega de dinheiro a outros políticos, entre eles, os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Contudo, Alberto Youssef negou o repasse de valores a Randolfe Rodrigues, e o STF não viu motivo para investigá-lo. Renan Calheiros negou ter recebido dinheiro.

Em nota, a defesa de Aécio informou que a acusação feita sobre o senador foi arquivada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 10 de fevereiro de 2016.

“A própria PGR reconheceu no pedido de arquivamento da denúncia que as declarações de ‘Ceará’ foram desmentidas nos depoimentos prestados pelo empresário Ricardo Pessoa e por Alberto Yousseff”, diz trecho do comunicado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes: oglobo + REDAÇÃO