Festivais de jazz à beira-mar estão cada vez mais comuns no país e Jacumã, praia do município de Conde, não fica de fora desta regra. Neste sábado (15) e domingo (16), acontece o Jacumã Jazz Festival.

O evento é fruto de uma parceria entre a Fundação Espaço Cultural (Funesc), Rádio Tabajara e Prefeitura Municipal de Conde. A ideia é inserir Jacumã na rota do turismo cultural, oferecendo atrações gratuitas para quem gosta de jazz, música instrumental e cultura popular.

As principais atrações são o bandolinista Hamilton de Holanda e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal, dois nomes de peso da música nacional. Representando diversas vertentes do jazz, também se apresentam o Parahyba Ska Jazz Foundation e a banda Néctar do Groove.

O público que for conferir o festival também terá a oportunidade de entrar em contato com a própria cultura local de Conde, a exemplo do Coco Novo Quilombo e Ciranda da Alegria. Todas as atrações são gratuitas e os shows acontecem na orla de Jacumã.

Hamilton de Holanda

Um dos instrumentistas mais requisitados do Brasil, Hamilton de Holanda possui um currículo invejável. Nos palcos, já fez parceria com o próprio Hermeto Pascoal e outros nomes como John Paul Jones (Led Zepellin), Milton Nascimento, Chico Buarque, Chucho Valdes, Egberto Gismonti, Zeca Pagodinho Djavan, Marisa Monte, Alcione, Maria Bethania, dentre muitos outros.

Na própria carreira, ele também faz uma série de trabalhos. O mais recente foi fruto de um convite da Deck Disc, por conta dos 100 anos que Jacob do Bandolim (1918-1969) completaria, caso estivesse vivo. Foram lançados os discos Jacob 10ZZ, Jacob Bossa, Jacob Black e Jacob Baby. No próximo mês, os discos, já disponíveis nas plataformas digitais, serão lançados em um box comemorativo.

“Eu sempre estou criando muitos projetos. É uma maneira que encontrei de trabalhar, de ser feliz, de conhecer mais gente e de promover misturas diferentes. Por conta deste centenário e dos lançamentos, devo tocar uma boa parte disso nesse show em Jacumã”, explica Hamilton de Holanda, em entrevista ao Correio.

Em cada um deles, há uma curadoria específica e um conceito em cima das diversas composições do músico. “Eu já tocava de 40 a 50 músicas de Jacob. Comecei a pensar nos discos. Inicialmente seriam seis, depois pensamos em três e, no fim, fechamos em quatro. A ideia é trazer uma estética diferente para cada repertório”, explica.

Em Jacob 10ZZ, há uma proximidade com o jazz, explorando as proximidades e harmonizações do contrabaixo marcante do gênero com o bandolim de dez cordas – é daí que vem o trocadilho do nome, com 10 e jazz. Já Jacob Bossa brinca com o próprio significado da palavra “bossa”, trazendo referências da bossa nova, mas também ao ritmo e ao balanço do significado original da palavra, uma definição do gingado que a música do próprio Jacob tem.

Jacob Black explora com mais liberdade a percussividade do repertório, dialogando com a música afro. Por fim, Jacob Baby retrabalha as canções para apresentá-las a um público infantil. “Eu sempre gosto de trabalhar com crianças, são o nosso futuro. Nesse disco, eu toco as melodias de maneira bem suave, quase como uma caixinha de música”, complementa Hamilton.

Os discos trazem repertórios distintos e conta com duas composições de Hamilton, “Jacob black” e “Suíte Jacarepaguá”, uma referência ao bairro do Rio de Janeiro que Jacob morou por muitos anos. A canção “Naquela mesa”, do filho de Jacob, Sérgio Bittencourt, também foi incluída nos trabalhos.

Hermetho Pascoal

Hermeto Pascoal é uma lenda. São inúmeras as conquisas do multi-instrumentista mundialmente respeitado, inclusive relembrar momentos históricos, como sua participação em um dos discos de Miles Davis, um dos membros do panteão do jazz. No entanto, a simplicidade e a atenção aos detalhes é que tornou Hermeto o gênio consagrado que influencia diversas gerações até hoje.

No show do Jacumã Jazz Festival, o músico de 82 anos mostra o repertório de dois discos lançados no ano passado, Hermeto Pascoal & Grupo – No Mundo dos Sons e Hermeto Pascoal e Big Band – Natureza Universal. Mas, é claro, é possível esperar muitas improvisações, já que um show seu nunca é igual ao mesmo.

A vinda à Paraíba o traz de volta memórias. “Quando eu tinha uns 25, 30 anos, morei três anos em João Pessoa, tocando na Rádio Tabajara. Lembro de sair depois do expediente para jogar sinuca ali perto. Ia bastante ao Ponto de Cem Réis, no Centro. Estou querendo muito rever esses lugares”, afirma.

Para quem não está habituado, ele é conhecido por tocar diversos instrumentos e até mesmo criar formas muito particulares para extrair som de diversos objetos. Rindo em alto e bom som, ele conta uma história recente sobre esta diversão.

Ao receber o título de doutor Honoris Causa pelo New England Conservatory em Boston, nos Estados Unidos, ele reagiu de maneira inusitada. “Tô contando aqui um segredo pra você, tá escutando? Eu tô fazendo música no pano do prêmio que eu recebi lá. Eu vi que ia guardar aquela faixa em algum armário, então decidi dar uma função pra ela”, revela Hermeto.

Essa curiosidade de experimentar vem desde pequeno. Ainda criança, ia com os amigos nadar na lago da pequena cidade de Lagoa da Canoa, em Alagoas. “Minha diversão era nadar, nadar e nadar, mergulhar e fazer sons com a boca debaixo d’água, entender a música que vinha das ondas que se formavam. Eu passava horas lá. Meus coleguinhas achavam que eu era louco”, comenta.

Quando o perguntam sobre sua capacidade de criação e percepção sonora, ele é direto. “Eu acho que sou assim porque não nasci músico, nasci música. É preciso se ater a sentir antes de acumular conhecimento”, completa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes: correio + REDAÇÃO